Deus

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Deus. Pois é, o Criador, o Pai, o Senhor… Em suma, o Maioral. Mas como será que ele é visto dentro do pensamento cabalístico? Não, não é igual ao Deus que você encontra no Cristianismo, Judaísmo e Islã.

Vamos começar lembrando que a Cabalá divide a Árvore da Vida com o Véu de Daath em duas fatias: abaixo de Daath está o mundo da dualidade, acima está o mundo da não dualidade. Acima ainda desse mundo da não dualidade, temos uma coisa ainda mais complicada de se entender para a massa de pão que chamamos de cérebro: os Véus da Negatividade, Ain, Ain Soph e Ain Soph Aur. Podemos dizer que tudo o que existe começa no Véu de Ain e vai descendo — ou “emanando”, como muita gente gosta de dizer — para baixo. Saindo dos Véus passa para as três Esferas Supernas, lá na não dualidade, e de lá continua descendo até Malkuth.

Bem, uma das primeiras coisas que difere a visão de Deus dentro da Cabalá das visões das religiões, e não só do trio Cristianismo, Judaísmo, Islã, mas de todas as religiões de forma geral é a ideia de que Deus foi criado. Isso, Joãozinho, para o pensamento cabalístico, Deus é uma criatura.

E aí vem a pergunta óbvia: se Deus é uma criatura, quem criou o Criador? Na visão da Cabalá quem criou Deus foi a Torah. Claro, não estou falando do livro ou daquele rolão que o pessoal usa nas sinagogas. Essa Torah mencionada pela Cabalá é aquela força primal que existe nos Véus. Grosso modo, podemos correlacionar com o conceito grego do Caos: um infinito e eterno potencial de criação e destruição, pipocando todo tipo de coisa, de ideias a ornitorrincos. E uma dessas coisas que pipocou da Torah foi justamente Deus.

Só que esse Deus era tudo o que existia. E ele era só o que existia porque ele ocupava toda a existência, seja lá como você entenda “existência”. Não sobrava espaço para mais nada. E essa totalidade ocupada por Deus tem um nome, que é Kether, a Esfera mais alta da Árvore da Vida. Deus está em e é Kether.

Acontece que, por algum motivo que vá lá saber qual foi, essa totalidade começou um processo de retração, de contração. Uma contração de si em si mesmo. E se você acha isso estranho, ainda não viu o que vem por aí. Mas essa contração deixou um vácuo, um baita espaço vazio que deveria ser preenchido com alguma coisa. E essa “alguma coisa” é o que chamamos de Criação. que foram as energias de Deus descendo Árvore da Vida abaixo, passando de conceitos vagos a coisas no mundo.

E o que é que isso tem a ver?

Eu vou lembrar aqui de uma coisa que me foi dita uma vez, durante uma palestra que eu estava dando. Uma moça levantou a mão e disse que a Cabalá ajudava a propagar o machismo no mundo do Ocultismo, Misticismo e coisas do tipo por apresentar a ideia de um Deus masculino e que já estava na hora de pensarmos em um Deus feminino.

Não vou negar que isso faz um baita sentido quando estamos falando do Cristianismo, do Judaísmo e do Islã, que realmente veem Deus como um sujeito de barbas e cabelos brancos sentado em um trono no meio das nuvens.

Só que em termos de Cabalá isso não faz o menor sentido.

Acabamos de falar que a Cabalá coloca Deus lá em Kether, onde não existe mais a dualidade. Conceitos como masculino e feminino não existem acima do Véu de Daath. Aliás, nenhum conceito dual existe lá. Não dá para falar que Deus é masculino ou feminino. E nem que é masculino e feminino, ou qualquer combinação que você consiga imaginar. Deus é. E o que é, é. Ponto final.

Eu sou Deus. Você é Deus. O YouTube é Deus. O celular e o computador são Deus. O Brasil é Deus. O planeta é Deus. O universo é Deus. Acho que até os choaches são Deus. E acho que já deu para você entender: tudo é Deus. Pensa bem, o que é que Deus tinha ali à mão para criar o Universo? Bolas, só existiam duas coisas: Deus e o vácuo que era o não-Deus resultante da contração. O vazio era para ser preenchido. Só sobrou Deus para Deus usar. Ele cria o Universo com sua própria essência. Logo, tudo o que foi criado é Deus. E como ele saiu criando que nem doido, até todo aquele vazio estar preenchido, usando a si mesmo como matéria prima — segura essa –, tudo é Deus e tudo está contido em Deus. Ao mesmo tempo.

Sim, dá nó na cachola. E vai piorando.

Pense da seguinte forma: se Deus é tudo e tudo está dentro dele, como é que você define isso? Qualquer coisa que você diga que Deus é, ele também não é. Ele é o oposto daquilo. E também não é isso. Simplesmente não tem como definir Deus. É por isso que os cabalistas dizem que só se pode definir Deus pela negação. Não se pode dizer “Deus é isso” por causa do que já falamos; mas os cabalistas acreditam que se pode dizer o que Deus não é. Pessoalmente, acho isso besteira.

Porque qualquer tentativa de definir o que Deus é ou não é não vai estar falando de Deus mas de uma fatia dele que nós escolhemos considerar. Nós limitamos Deus. Caramba, nós limitamos o ilimitado!

Deus não pode receber atributos porque ele já tem todos e também seus opostos, o que você já deve ter compreendido a essa altura. Só que, mais que isso, se tem toda essa impossibilidade de se definir Deus, como é possível, ainda por cima, dar a ele uma personalidade, uma vontade ou um objetivo?

O Deus de quase toda religião monoteísta segue o esquemão do velho barbudo ou coisa do tipo. Com um plano, principalmente, um plano para você. No fim das contas o que todo esse pessoal faz é pegar pedaços de Deus que lhes agradem pessoalmente e sair montando a sua própria divindade pessoal. Sabe aquilo de “criado à sua imagem e semelhança”? Acabou que foi o contrário: nós criamos Deus à nossa imagem e semelhança. E temos feito isso há muito, muito tempo. E o mais triste nisso é que nos ajoelhamos, rezamos e nos submetemos a algo que nós mesmos criamos.

Bem, como eu já disse, o conceito cabalístico de Deus é bem diferente. Para a Cabalá, Deus não tem plano, não tem vontade, não tem personalidade, não tem imagem, não tem sexo, não tem cheiro, não deforma e não solta as tiras. Dentro da Cabalá se entende que dar qualquer tipo de atributo a Deus é limitar o que ele é. Que simplesmente é.

Aliás, dentro do pensamento cabalístico o próprio questionamento da existência de Deus não tem sentido. Afinal de contas, existir já é um atributo.

Ah, mas e aquele monte de imagens nas Esferas da Árvore da Vida, os nomes de Deus e essa coisa toda? Calma, Joãozinho.

Toda essa tralha, Árvore da Vida, imagens simbólicas, nomes e o escambau são formas de treinarmos nossas mentes através da meditação, em um processo ascendente até que sejamos capazes de preencher nossa mente apenas com Deus. O que quer dizer isso mesmo: você tem toda a existência dentro de si.

Boa sorte.

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