Essa é de Morte!

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Não vamos sequer fazer de conta que a morte não seja um dos principais “motores” de tudo quanto é religião e de uma boa parte dos sistemas místicos que temos por aí. É claro que é! Quase todo mundo se preocupa com o que é que vai acontecer cinco minutos depois que batermos as botas, vestirmos o pijama de madeira, irmos para o beleléu e por aí vai. Então é óbvio que a Cabalá tenha algo a dizer sobre isso.

Mas dizer o quê?

De forma geral, muita coisa. Até porque não há uma única forma de ver o pós vida dentro da Cabalá. Dependendo da “linhagem cabalística” que a pessoa tenha adotado, a coisa varia bastante. Podemos começar, então, dividindo em duas grandes correntes: a que se aproxima mais dos conceitos da religião judaica e a que se afastas desses conceitos.

A forma mais tradicional de pós vida é quase que uma base para a crença cristã sobre o que acontece depois da morte. Para o judaísmo, uma vez morto o corpo físico a alma (de fato, a essência divina) vai progressivamente afastando-se do corpo conforme este vai se degradando. Quando finalmente está livre, a alma, ainda dotada da consciência individual do sujeito, vai para o Olam HaEmet, onde passa por um julgamento. Mas, ao contrário do conceito cristão, o juiz não é a divindade mas a própria consciência, que se faz ciente de todos os atos de sua vida, de forma direta e crua. Depois disso, a consciência recebe o conhecimento de um “e se…”, onde descobre como poderia ter sido sua vida se tivesse tomado decisões melhores. E dizem que esse é pior que o primeiro. Na verdade, um verdadeiro Inferno. Mas, novamente, este não é como o cristão. Não é entendido como uma punição eternas mas como um estágio de purificação. Esse sofrimento passado ao se entender como sua vida poderia ter sido muito melhor se você não fosse um bestalhão (e quem não é?) é o que purifica a alma e permite que se alcance do Gan Eden, o paraíso, onde a pessoa pode passar a eternidade estudando os mais profundos segredos da Torah ao lado de Deus, e fica esperando lá. Porém, caso a consciência não se entenda como digna disso, a alma vai para o She’ol, onde ficará um ano se purificando antes de passar para o Olam HaBar, onde passa por outra auto avaliação. Daí ela vai para o Gan Eden ou então, se a consciência se entende como irremediavelmente má, é pura e simplesmente destruída.

Essa é uma versão. Já outra diz que a alma, após a morte, fica em um estado de vida etérea, podendo vagar por onde quiser em modo Full Gasparzinho. Neste estado a alma pode acompanhar seus entes queridos, auxiliar espiritualmente alguém que esteja em necessidade e por aí vai. Desta forma ela tem a oportunidade de ir se aprimorando ainda através de atos de caridade (espiritual, claro) e amor. Assim ela vai se purgando de todo mal que tenha feito em vida até ser capaz de se encontrar em um estado de paz espiritual enquanto espera.

E tem ainda uma terceira visão de pós-morte, que deixaria qualquer espírita feliz, pois é justamente uma visão reencarnacionista. Você morre e reencarna. Morre e reencarna. Morre e reencarna. E a cada encarnação vai se aprimorando espiritualmente para que, em um belo dia, possa morrer pela última vez e esperar.

Claro que há todo tipo de combinação entre esses processos, o que gera uma baita confusão sobre para onde vai a alma depois da morte. Mas o que todos concordam é que, em algum momento, vai se esperar.

Tá, você já deve estar de saco cheio querendo saber o que tanto se espera.

O que se espera é a Era Messiânica. Isso vai se dar em um futuro áureo quando o Ungido definitivo (Messhiah significa isso mesmo, ungido) chegar para reunir novamente todo o povo judaico no mesmo solo santo e guiá-los para a glória. Neste dia todos os mortos (judeus) irão ressuscitar em toda a sua glória carnal. E o que acontece daí em diante? Não faço a menor ideia. Na verdade, acho que nem os rabinos, pois cada um tem a sua própria versão. E quem sou eu para discordar?

Outras linhas cabalísticas já se afastam um pouco dos conceitos judaicos de pós-vida. Provavelmente por não estarem operando sob a questão da Era Messiânica. Mas é claro que essas linhas também seguem cada uma sua forma de pensamento. A Cabalá não é maravilhosamente zoneada? Mas vamos lá…

A primeira ideia de pós-vida cabalístico que se afasta dos ramos mais tradicionais do judaísmo mistura um pouco o modo Full Gasparzinho com o do vai e volta reencarnacionista. Funciona mais ou menos assim; quando você morre pode avaliar se o seu entendimento da Cabalá está de bom tamanho ou não. Dizem que, normalmente, leva umas sete encarnações para ficar supimpa. Se você acha que ainda precisa aprender mais, volta fresquinho da silva para continuar a se desenvolver. Se acha que já está de bom tamanho pode continuar trabalhando como uma espécie de guia espiritual para os que estão fazendo bobagem nesse processo de aprendizado ou que sejam mais lerdinhos nele. Ou então pode escolher simplesmente ficar de bobeira por aí.

Outra linha de pensamento cabalístico entende que todas as almas vão para o She’ol e ficam lá durante um tempo (não é um local de punição mas de purificação) até que estejam prontas para o Gan Eden ou para a destruição.

Certo mas para essa turma, mesmo esse estado de ficar vagando ou lá no Gan Eden não é para sempre e sempre. Tudo tem um fim. No caso, a ideia é que existe um número limitado de almas que foram criadas no momento em que Deus monta o Universo. Quando não tem nenhuma alma de bobeira aí para reencarnar, pega-se uma do Guph, o Salão das Almas, onde elas ficam guardadinhas. E daí… Pimba! Mais um bebê. Mas e quando o Guph estiver vazio?

O que acontece é que aí o Universo cumpriu sua função. Ou você achava que isso aqui só existia para ficar no boteco jogando purrinha? Não, senhor! O Universo tem a função de permitir que todas as almas que foram criadas possam evoluir até alcançarem seu estágio final como divindades, à imagem e semelhança do Criador. Depois que todas tiverem alcançado sua evolução final, vão aparecer os Anjos Negros, a turma de demolição para desmontar toda essa bagaça. E ponto final.

Agora, o que é importante entender, em termos cabalísticos?

Primeiro é que, não importa com encare o pós-vida, o cabalista não vê a morte como uma finalização e sim como uma parte essencial da própria vida e uma continuação da mesma. Então não há realmente uma tristeza inerente ou uma separação real de mundos entre vivos e mortos. Há apenas uma continuidade que pode ser cíclica ou linear, de acordo com a linha de pensamento.

A segunda coisa importante a se notar é que não se espera um julgamento por uma entidade onisciente e onipotente. É a própria consciência, munida com conhecimento do que foi e do que poderia ter sido que decide como será o seu destino. Você é o seu próprio juiz e júri.

Outra coisa que se deve entender – e isso é fundamental – é que para o cabalista, Inferno e Paraíso não são lugares físicos ou metafísicos e sim estados de consciência. Veja bem, Cabalá tem tudo a ver com evolução pessoal. E uma evolução que se dá através da sua conexão particular com o divino e o conhecimento gnóstico que você obtém daí. Essa evolução é necessária por conta daquela história de comer o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal (que não é a Árvore da Vida). Bolas, pense comigo: se Deus não queria que o Ser Humano comesse desse tal fruto por que diabo colocaria a Árvore bem no meio do jardim com uma placa enorme escrito “אל תאכל”? Das duas uma, ou esse é um Deus muito trollador ou então esse conhecimento já era para ser nosso mesmo. Só que na hora certa. Pois o que nos retirou do Paraíso foi justamente ter esse conhecimento antes de estarmos prontos, antes de termos a maturidade espiritual para ele.

Ou seja, o Paraíso, no conceito cabalista, é um estado de espírito onde ou somos completamente ignorantes da verdadeira natureza do mundo da dualidade, com nossas mentes vivendo lá na região das Supernas, ou no qual temos o conhecimento dessa natureza mas como nossas mentes já estão lá nas Supernas, isso não nos afeta. Ser “expulsos do Paraíso” foi perder essa inocência antes de termos nossas mentes prontas para lidar com a dualidade. Então, o que nos resta é fazermos o que pudermos (i.e. nos aprimorarmos espiritualmente) para voltarmos lá para cima e não sermos mais afetados pela dualidade.

Só tem um porém. Para voltarmos a este estado é necessário que passemos por uma série de 10 etapas de evolução. E sabe qual a primeira etapa, aquela em que quase todos estamos? É justamente o Gueinon, o Inferno. Só que, não sendo um local físico, um local de punição ou nada do tipo, o Gueinon é o estado mental onde somos dominador por Shaitan. Só que pode ir esquecendo o Diabão, o Satanás, o sujeito de chifres, rabo e tridente. Shaitan não é uma personificação de nada, não é um indivíduo nem nada disso. Ele é, como o próprio nome diz, um Adversário. De Deus? Não, isso seria ridículo. Ele é o nosso próprio adversário. Podemos chamar de “contra-inteligênca”, É aquele impulso de preguiça, de dispersão, tudo aquilo que nos faz deixarmos de lado nossos objetivos, não cumprirmos o que precisamos para avançar. Somos nós mesmos nos sabotando. Só quando vencemos Shaitan, ou seja, a nós mesmos, é que saímos do Inferno e começamos nossa jornada de volta ao Édem.

Quando entendemos isso é que começamos a ver que a morte não é algo assim tão importante. Não importa o que acontece depois e sim o que está acontecendo agora. Se você acredita no pós vida com recompensa ou não, isso vai depender das suas escolhas aqui e agora. Se você crê na reencarnação, o que importa é como você está se desenvolvendo agora. E mesmo se você não acredita em nada disso, não deixe de acreditar que a vida continua após a morte. Se não de uma forma literal, metaforicamente através do legado que você deixa, seja na forma de filhos, de aprendizes, de suas obras. E quando é você trabalha isso?

Isso mesmo: agora.

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